O diretor Ryan Coogler assumiu uma grande responsabilidade ao aceitar dirigir Creed, o spin-off de Rocky, uma das maiores franquias da história do cinema. Dentre os desafios a se enfrentar está a renovação da linguagem cinematográfica, mantendo, no entanto, o “espírito” do clássico. É nessa união que o roteiro de Coogler e Aaron Covington aposta, e já adiantando, acerta em cheio.

O filme se inicia apresentando a infância conturbada de Adonis Johnson Creed (Michael B. Jordan), filho do adversário lendário de Rocky Balboa, Apollo Creed. Adonis é fruto de uma infidelidade, e vive em um reformatório até ser adotado pela viúva de seu pai, Mary Anne. O crescimento dele não é apresentado em tela, mas dá-se a entender que ele tenha sido criado em berço de ouro. O boxe, no entanto, está no sangue de Donnie, fazendo com que ele participe em lutas de bar no México, ao mesmo tempo em que trabalha em uma grande empresa de investimentos. Essa paixão pelo esporte, tão belamente fotografada e representada pela cena em que Adonis reproduz a luta de Rocky e Apollo em frente a uma projeção do confronto, faz com que o jovem se demita para perseguir a carreira de boxeador. Para isso, o jovem vai até o antigo amigo de seu pai, Rocky Balboa (Sylvester Stallone) para receber treinamento.

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O roteiro do filme segue a estrutura dos clássicos que o precedem, focando em discursos motivacionais e frases de grande peso emocional, que funcionam bem em sua maioria. Algumas das partes da história são um pouco mal resolvidas e passam rápido demais, tanto ao abordar assuntos do passado não mostrado, quanto ao apresentar e resolver certos conflitos. E mesmo com essas aceleradas no roteiro, há uma leve perda de ritmo na metade do filme. Mas não é como se isso atrapalhasse a mensagem do roteiro como um todo, pois os personagens são bem construídos, no geral, e a trama consegue ser eficiente até sua conclusão.

No entanto é nos outros aspectos técnicos que o filme realmente ganha força. Fotografia, montagem e som trabalham juntos de maneira coreografada e muito bem feita. A primeira cena de Creed dentro de um ringue é de tirar o fôlego, apresentada através de um plano sequência de impressionantes quatro minutos e onze segundos. A câmera se move por dentro da luta com maestria, capturando cada soco e cada movimento, assim como a reação daqueles que assistem, com movimentos precisos e hipontizantes. Hipnose essa reforçada pelo belíssimo trabalho de som, tanto com a trilha quanto com a mixagem, que destaca os impactos mas também traz a tona a torcida. O espectador fica completamente imerso no acontecimento durante todo o tempo. Apesar de não haver cortes, a montagem interna (aquela que diz respeito à decupagem de enquadramentos e movimentos) é impecável, e dialoga perfeitamente com os outros dois fatores previamente apresentados.

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Durante o decorrer do filme, ao tratar do cotidiano, o técnico se torna um pouco mais invisível, mas volta a crescer nas clássicas montagens de treinamento espelhando aquelas que ajudaram Rocky a se tornar um clássico das telas de cinema. A trilha dessas cenas é uma bela junção do antigo (músicas motivacionais no melhor estilo Gonna Fly Now) com o novo, representado pelo Hip-Hop, que apresenta muito bem o choque de gerações representado no longa. A montagem também faz sua parte com eficiência e imprime um ritmo crescente, que nos faz sorrir e vibrar (mesmo que internamente) junto a Balboa e Creed.

As atuações dispensam comentários. Todos já sabem que Stallone é Rocky e Rocky é Stallone. E Michael B. Jordan não ficou para trás em seu trabalho. A química entre todos os personagens é incrível. Jordan consegue executar a complexidade emocional de Adonis sem parecer fazer muito esforço, tanto nos momentos de raiva e explosão, quanto nos de sensibilidade, ao contracenar com Bianca, seu par romântico, este muito bem interpretado por Tessa Thompson.

Creed é um filme sobre passado, sobre legado e sobre como lidar com essas questões no presente. Tratar desse tema através de um personagem tão bem estabelecido na cultura do cinema mundial é uma ótima sacada. O filme é uma passada de bastão para as novas gerações. Ver Balboa lidando com seu passado, porém empolgado com o futuro que avista em Donnie é emocionante. Adonis respeita o que veio antes dele, mas quer construir sua própria história. Há uma harmonia entre as gerações dentro e fora do filme. O peso do legado não está somente nas costas dos personagens, mas também naqueles que foram escolhidos para escrever e filmar essa história. Peso esse que foi revertido em um ótimo trabalho pelo diretor Ryan Coogler, que conseguiu capturar o sentimento que é assistir Rocky pela primeira vez e o transpor para os tempos atuais.

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O longa é uma ótima escolha para os fãs dos clássicos filmes de Stallone, mas não os tem como uma muleta, e com certeza será responsável pela introdução de muitos jovens ao universo de Rocky Balboa. É um bom filme em sua individualidade, porém torna-se melhor (e completo) como uma continuação de seus predecessores.

 

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