Sobre o movimento separatista da Catalunha com a Espanha é que o documentário político, original da Netflix, Duas Catalunhas se debruça. O longa, dirigido pelo já conceituado e premiado documentarista Álvaro Longoria, em parceria com Gerardo Olivares, faz como um panorama sobre a complexa e tensa relação da região autônoma da Catalunha com o governo do país ao qual pertence a contragosto, cobrindo as lutas para tornar a região independente a conseguinte repressão do governo espanhol durante o ano de 2017.

Pelas vozes de diferentes perspectivas e personalidades, argumentos pró e contra separação são postos em contraste, construindo uma espécie de diálogo. São apresentadas entrevistas com políticos, cidadãos comuns de todas as idades, desde jovens até idosos, jornalistas, estudiosos, economistas e imigrantes que declaram seus diversos motivos para tomada de suas respectivas posições. O dissenso pode ser explicado pelo conceito de comunidade imaginada de Benedict Anderson, que diz que nações são definidas por imaginários comuns, que definem comportamentos coletivos, mas que não tem nada de comunitário de fato – de acordo com esta, a Espanha tenta forçar um imaginário à Catalunha, e esta o nega e afirma ter o seu próprio, gerando o desencontro.

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Um ponto positivo e sensato da abordagem escolhida pelo diretor é demonstração da complexidade das relações políticas que protagonizam o filme. Por não vivermos mais em uma era de instituições, e sim de corporações, é difícil traçar limites e apontar intenções absolutas dos movimentos e partidos em suas ações e objetivos. O documentário afirma esta perspectiva quando mostra que tanto os separatistas como os opositores tem motivos diferentes para assumir seus posicionamentose que elas atendem tanto ao que acreditam ser o bem da nação quanto aos seus próprios interesses. Há muito interesse econômico, disfarçado de nacionalismo, envolvido na problemática – por exemplo, muitas empresas espanholas tem sede e público consumidor na Catalunha e não é rentável ter a região como um país próprio, pois toda a dinâmica de comércio seria diferente – com taxações para importação dentre outros. 

É importante, enquanto espectador consciente dos processos de feitura fílmica entender que apesar de dialogar com ambas posturas perante a questão, o documentário não é imparcial: as imagens e a montagem falam mais alto – o diretor está ao lado dos separatistas e deixa isto claro no recorte insistente que faz da violência e comportamento ditatorial que o governo espanhol tem com a região autônoma, figurado, pelas imagens de repressão abusiva da polícia aos militantes. 

Apesar de ter uma opinião formada e manifestar sua parcialidade, o documentário não tende e não pretende domesticar aquele que assiste, não quer forçar opiniões e pensamentos, mas quer fazer pensar e este é um grande acerto. Ao mostrar a verdade da minoria, o diretor está sendo justo e trazendo ao grande público imagens cotidianas que passam despercebidas devido à hegemonia da mídia de acordo com os mais poderosos, no caso o governo espanhol.

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A temática abordada é complicada e decorrente de processos que se iniciam há centenas de anos, por isto, para um espectador leigo, o filme se mostra confuso em muitos momentos. É uma problemática latente: o filme depende de um espectador ideal, que tenha base e conhecimento sobre a história e política de toda a Espanha enquanto nação. Acredito que seja mais funcional enquanto complementação de informação para pessoas que já sabem algo do que como uma experiência didática que conversa com qualquer público.

Por fim, há no discurso verbal uma mensagem positiva e moralista sobre como um diálogo poderia ser feito entre a Espanha e a região autônoma mas fica claro nas imagens que este dialogo não é possível enquanto o país continuar com a pose ditatorial e fascista com a oposição.

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