Dirigido pelos ingleses Andy Nyman e Jeremy Dyson e baseado na peça de teatro homônima (também de autoria da dupla), Ghost Stories acompanha o protagonista Phillip Goodman, um solitário acadêmico e apresentador de TV do Reino Unido que, marcado pela interferência do judaísmo supersticioso de seu pai na união da família, fez de sua missão de vida desmascarar médiuns charlatões e crenças paranormais. Um dia ele recebe um convite de Charles Cameron, um investigador paranormal famoso na TV dos anos 70 que desde cedo inspirou o trabalho de Phillip, e tem sido julgado desaparecido à décadas. Crítico do trabalho do protagonista, Charles desafia o apresentador a desvendar três casos os quais o próprio Charles jamais conseguiu explicar. É a partir desse momento que o filme se torna uma espécie de antologia (semelhante à série V/H/S porém mais complexo, coeso e elaborado), intercalando a história de Phillip investigando os casos e os casos em si.

Apesar de, em um primeiro momento, o filme aparentar apenas ser uma antologia de terror de qualidade acima da média (talvez até em decorrência do título pouco inventivo), eventualmente se percebe que ele é bem mais do que isso. Não apenas pelas atuações morbidamente divertidas e inusitadas, ou pela fotografia surpreendentemente atmosférica (e independente das convenções do gênero em sua maior parte), pela edição sonora precisamente tensa e efetiva, e sim pela forma que revira e brinca com as convenções e expectativas do gênero. Além do excelente design das “aparições”, que em momentos remete à uma versão boa e mais contida do decepcionante remake de 13 Fantasmas, de  2011.

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Enquanto nas cenas externas (principalmente as que introduzem a investigação de Phillip) predominam os planos abertos, os quais por vezes remetem à um Kubrick menos simétrico, as internas menos frequentes no arco de Phillip, e predominantes nos flashbacks dos casos, adotam uma preferência pelos planos fechados (convencionais para a criação de tensão e suspense no gênero), porém por meio de enquadramentos inventivos e inusitados quebram a distração proveniente eventual dos clichês e mantêm o filme visualmente estimulante consistentemente (um dos exemplos é o plano, no primeiro caso, em que o segurança que o protagoniza desce a escada na escuridão). As externas, cinzentas, ainda favorecem uma atmosfera fiel à ambientação britânica e ao caminho narrativo denso percorrido por Phillip, enquantos as internas eficientemente capturam a claustrofobia e ansiedade dos momentos de tensão.

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As atuações consistentemente chamam a atenção aos personagens excêntricos e idiossincráticos, Martin Freeman como sempre traz uma performance magnética e divertida, e a atuação do diretor Andy Nyman no papel do protagonista Phillip rápida e primorosamente estabelece seu caráter vulnerável e defensivo. O destaque maior, no entanto, é a performance de Alex Lawther (a metade masculina do casal que protagoniza The End Of The F***ing World e o protagonista do episódio “Shut Up And Dance” de Black Mirror) como a testemunha do segundo caso, Simon Rifkind, um jovem desesperadoramente ansioso e esquisito, cujo a simples presença em cena já é capaz de trazer tensão e desconforto.

E além da primorosidade dos aspectos citados, há a edição e mixagem do som, limpos e usados com precisão para ressaltar os menores detalhes na construção de tensão (exemplo que se destaca é a ansiedade causada pela vibração do celular que toca constantemente enquanto Simon, irriquieto, dirige um carro sem ter carteira de habilitação). Contudo, o único elemento do filme que não se destaca é a trilha musical que, apesar de boa e eficiente, não traz nada de destaque ou de não-convencional do gênero (com exceção da divertida música dos créditos).

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Na última década tem ocorrido uma ressurgência (bem vinda se for levada em consideração a qualidade de muitas das produções recentes) das antologias de terror cinematográficas, porém apesar de parecer uma à princípio e até ter parte de sua estrutura baseada no formato, Ghost Stories é um pacote completo que deve ser assistido para se ter ideia do porquê ele não é só isso.

 

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