Existe um sub-gênero nos filmes de drama ou comédia dramática que tratam de interações “forçosas” entre pessoas preconceituosas e aquelas que são alvo do preconceito. Um exemplo clássico é Conduzindo Miss Daisy, de 1989. Green Book: O Guia assemelha-se muito com essa obra, mas agora com os papéis invertidos: o negro é quem está na posição de poder em relação ao branco. Esse dispositivo tem muita força e é ainda mais acentuado pelas brilhantes atuações dos protagonistas, mas a narrativa é previsível e apresenta pouca força no geral.

O filme se passa na década de 60 e conta a história de Tony Lip (Viggo Mortensen), um segurança de boates novaiorquino, descendente de italianos, que aceita o cargo de motorista do renomado pianista Don Shirley (Mahershala Ali). Logo ao iniciar a viagem, Don entrega a Tony o livro Green Book, “Livro Verde”, e o explica que nele constam os hotéis e estabelecimentos que aceitam pessoas negras, visto que a época era de fortíssima segregação racial nos Estados Unidos. A premissa é engajante e o dispositivo do livro tem um pontencial por si só, mas narrativamente o longa não vai muito longe do esperado, infelizmente.

No entanto, o longa torna-se uma experiência muito prazerosa se ignorarmos a previsibilidade do roteiro e mudarmos o foco para a atuação. Viggo Mortensen está irreconhecível, e faz o papel de italiano briguento tão bem que parece que o retiraram diretamente de um filme de Martin Scorsese. Os trejeitos, modo de falar e de se mover, a corporalidade, tudo é muito natural e impressionante. Mahershala Ali entrega, também, com perfeição o papel de “alta-classe sofisticada” e a evolução de seu personagem é muito bem construída pelo ator. Assim como os momentos de entrega emocional e de tranformações de humor, aspectos que tendem a dificultar o trabalho de atuação, são entregues com perfeição.

É uma pena, no entanto, que com todo esse potencial, tanto técnico quanto de discurso, tenha sido diluído ao produto final que foi apresentado. As questões raciais e identitárias do filme são bem apresentadas e chocam em alguns momentos. Mas o filme falha ao tornar simples demais a “conversão” de alguns dos personagens, que simplesmente deixam de ser racistas de um instante para o outro. Além de que o Green Book é citado duas ou três vezes, e é basicamente esquecível dentro da narrativa do filme, o que soa como um desperdício enorme.

Se Green Book merece estar na lista de indicados ao Oscar de 2019 é pelo peso das atuações, entregues com maestria pelos dois protagonistas, que fazem tudo que há de errado com o longa ser quase “perdoado”. É triste, ainda, que um filme que aborda questões raciais tenha sofrido com denúncias de racismo em seu set de gravação. No fim das contas Green Book: O Guia deixa o público intrigado no que poderia ter sido, dado a qualidade do elenco e a potência de seu dispositivo, e no fim será lembrado apenas pelas atuações.

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