O Studio Ponoc entrou no catálogo Netflix nessa sexta-feira (6) com sua segunda produção, Heróis Modestos, uma obra de 53 minutos composta por três curtas animados. O lançamento de 2018 chega agora para satisfazer as expectativas dos fãs no Brasil que acompanharam o nascimento da Ponoc em 2015 e sua estreia em 2017.

Studio Ponoc

O estúdio de animação japonesa é muito recente, e carrega fortes influências do afamado Studio Ghibli, de onde vieram o produtor Yoshiaki Nishimura e outros diretores. Após a pausa da Ghibli em 2014 por conta da aposentadoria de Hayao Miyazaki, que foi um dos fundadores, o produtor Nishimura, em atividade desde 2004, decidiu começar um novo projeto, voltado a um público infantil, dando vida ao Studio Ponoc. Seu primeiro lançamento, o longa Mary e a Flor da Bruxa, não está disponível na Netflix, mas fez muito sucesso, principalmente se tratando de um trabalho de inauguração. Para a produção de Heróis Modestos, ele convidou três animadores com raízes Ghiblianas para dirigir cada um dos curtas. O resultado você confere agora.

NISHIMURA Yoshiaki, animador japonês responsável pelo Studio Ponoc

[PODE CONTER SPOILER]

Kanini & Kanino

O primeiro curta a aparecer tem como título “Kanini & Kanino” e é protagonizado por um casal infantil de irmãos caranguejos vivendo no fundo de um córrego. A princípio eles estão acompanhados do pai, que os ajuda na caça e os protege de predadores. Em alguns flashbacks, vemos porque a mãe não está junto com eles e como a saudade afeta as crianças, principalmente a garotinha. O conflito começa quando o pai, ao tentar salvar os filhos, acaba sendo levado por uma corrente de água para longe. Os dois, então, partem à procura dele.

Até aqui, muitos detalhes da animação já foram expostos, mas assim que as crianças começam a se aventurar, o desenho fica cada vez melhor, com um delicado trabalho de proporções e perspectiva, contrastando os personagens minúsculos à margem do rio, a plantas subaquáticas e a outros animais.

Durante todo o desenvolvimento, o curta é embalado por músicas de fundo extremamente adequadas, conferindo ao enredo algumas percepções emocionais que não seriam possíveis verbalmente, já que a animação conta com pouquíssimos diálogos. Quando finalmente encontram o pai, as crianças precisam enfrentar um peixe colérico que quer devorá-los. Após o clímax, o final feliz: Depois de conseguirem sobreviver, os três se reúnem à mãe, que traz nos braços os novos filhos que deu à luz nesse tempo.

O produtor Nishimura conta em entrevista à Netflix que o diretor Hiromasa Yonebayashi (As memórias de Marnie) desenvolveu essa ideia depois que sua esposa engravidou do segundo filho. Nessa época, em que ele e o filho mais velho tiveram que aprender se virar sozinhos, ele começou a refletir sobre essa temática do núcleo familiar se adaptando a uma gravidez, e habilmente transformou isso em arte através de Kanini & Kanino.

A Vida Não se Perderá (Life Ain’t Gonna Lose)

Dirigido por Yoshiyuki Momose (Túmulo dos Vagalumes), que também esteve presente na primeira produção do Studio Ponoc, o segundo curta apresenta a vida de Shun, um garotinho alérgico a ovos, e sua mãe. É uma condição rara, em que qualquer partícula, seja por ingestão ou por contato com a saliva de alguém que tenha comido ovos recentemente, pode provocar choques anafiláticos e levar à morte em questão de minutos. Por isso a mãe precisa estar atenta a todo o momento não só ao que Shun come, mas também a onde ele está, e às comidas perto dele.

Maggie Q, que dubla a Mãe, revela que Shun é inspirado na história real de um garoto com alergia a ovos, e o quanto isso a envolveu, se tratando de um tema tão complexo como é a vida e a morte no dia a dia de uma criança, e ao mesmo tempo tão surpreendente, ao retratar o relacionamento entre filho e mãe. Diferentemente do primeiro curta, que retratava um ambiente subaquático fantasioso e contava com cores mais frias, “A vida não se perderá” aborda um tema complicado, porém do cotidiano, e usa traços mais leves e cores mais quentes.

Apesar de todos os esforços da mãe para tornar a vida de Shun o mais normal possível, vemos que ele se sente incomodado por perceber a distinção entre ele e seus coleguinhas e sua difícil relação com a comida, principalmente fora de casa. A animação transmite o quanto uma criança consegue ser consciente dos problemas que enfrenta, mesmo que tenha uma percepção diferente de um adulto.

O momento mais crítico é quando Shun está sozinho em casa e come um iogurte que acreditava ser seguro, mas começa a se sentir mal e descobre que havia ovos nos ingredientes. Ele liga para a mãe e corre para o restaurante ao lado de sua casa para pedir ajuda na aplicação da sua injeção. No caminho, Shun sente que vai morrer, e começa a lembrar de momentos de sua curta vida. Mas ele se determina a sobreviver, e depois acorda na maca de uma ambulância, ao lado da mãe, dizendo que ele conseguiu. Essa determinação é enfatizada quando, na cena final, ele está dentro de um galinheiro e desenha uma expressão carrancuda segurando uma injeção na superfície de um ovo.

Uma história emocionante sobre a inocência da infância confrontada com a dureza da vida real.

Invisível

O terceiro e último curta, sob direção de Akihiko Yamashita (Giant Robo), foi um desafio e tanto para a produção. Nishimura contou também na entrevista que escolheu Yamashita porque gostaria de ver o melhor animador que conhecia trabalhar com um personagem invisível. A inspiração para essa ideia dentro do tema “Heróis Modestos” veio de uma reflexão social por parte do fundador do Studio Ponoc. Ele se encontrou com Yamashita em um café e depois de algum tempo sentados, perguntou se ele se lembrava do rosto de quem lhe tinha servido. “Muitas coisas no dia a dia nos passam despercebidas. Não deveríamos viver sem lembrar ou pensar na vida dos outros. Deveríamos estar cientes das pessoas invisíveis no mundo a nossa volta.”, diz Nishimura.

É exatamente isso o que acontece como o homem invisível. Ele passa despercebido em todas as situações, e não consegue nem ficar com os pés no chão se não estiver segurando algo pesado. Inclusive quando isso acontece, ele começa a flutuar e subir cada vez mais, tentando se agarra de forma desesperada em qualquer coisa que o impeça de sair voando. A música de fundo colabora para a formação da tensão, e depois de muito esforço, ele consegue descer novamente, porém agora muito desanimado. A animação traz todo esse tom melancólico através do cenário escuro, com céu sempre fechado e chuvoso e cores apagadas.

Ele permanece sentado de frente ao rio, inerte, até que um senhor acompanhado de um cão guia se aproxima e fala com ele. Sim, ele o vê, mesmo sendo o único cego de todas as pessoas por quem o homem invisível passou naquele dia. Depois disso, o homem se desinquieta. Uma ponto vermelho ao longe parece preocupá-lo e ele acelera em sua moto na intenção de chegar lá antes do caminhão que também vem a toda velocidade na rodovia. Mais uma vez a música e os movimentos contribuem para o clima exasperado, e quando ele finalmente alcança o objeto, percebemos que seu objetivo era salvar um bebê cujo carrinho estava sozinho no meio da rua de ser atropelado. E qual não é nossa surpresa quando o bebê abre os olhos e sorri para o homem.

Provavelmente, dentre os três, esse é o curta que mais representa o título “Heróis Modestos”.

Crítica

Depois de três animações tão ricas quanto essas seria impossível não recomendar o Studio Ponoc. Cada detalhe foi bem traçado, desde as ideias por trás das histórias e a relevância do tema central, até as adaptações de estilo do desenho em cada curta, passando pelos efeitos sonoros dirigidos por Koji Kasamatsu. Apesar de serem muito recentes no mercado, segundo o fundador do Studio Ponoc, eles não pretendem ir devagar nas produções, como é esperado dos estúdios de anime, já que animações como essas levam tempo. Apenas um ano depois do lançamento de Mary e a Flor da Bruxa, Heróis Modestos estreou no Japão, e agora graças à Netflix podemos conferir essa maravilha enquanto aguardamos as próximas produções. Nishimura disse em entrevista que não vê porque não chegar até um Volume 10, e não sei vocês, mas eu fico muito ansiosa com isso!

E você, o que achou de Heróis Modestos? Diga qual curta foi o seu preferido nos comentários!

 
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