Made in Mexico demonstra ter uma proposta clara e objetiva: apresentar o verdadeiro indivíduo mexicano para o mundo e desconstruir os preconceitos e esteriótipos acerca do país. A série em formato de reality show já começa exibindo sua dinâmica e inserindo o espectador na vivência dos participantes e tudo é de um mal gosto curioso. Para alcançar o desejado, a perspectiva adotada é a de trazer como protagonistas membros da elite mexicana e seus dramas relacionais. 

As paisagens são bonitas, os personagens carismáticos, o ritmo é dinâmico e no plano de fundo é até perceptível traços sutis da cultura mexicana, mas a série que tem como título “Feito no México” peca seriamente quando recorta uma minúscula elite como o indivíduo padrão mexicano que carece de representação. E mais, não é simplesmente porque existe uma parcela infinitamente maior de pessoas que não pertecem a este grupo social do que as que pertencem, mas porque quando opta por representar este pequeno grupo, assume e se apropria do entretenimento tão comum no país que mais violenta e humilha mexicanos – os Estados Unidos, que se apresenta numa figura de colonizador intelectual e cultural, além de silenciar a verdadeira miséria vivida pelos povos da América Latina: é um impulso auto-destruidor.

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O México está entre os países com diagnóstico mais preocupante no que diz respeito à desigualdade social e os censos apontem que dois terços das riquezas pertencem a 10% das famílias e que um terço pertence a 1% delas – estas são as que vemos em Made in Mexico. O número de mexicanos vivendo em situação de pobreza ultrapassa 50 milhões. Esta relação absurda aparece de maneira descontraída na fala de um dos personagens do programa, quando declara que o ciclo social em que está inserido é pequeno e que “todos se conhecem”, afinal os multimilionários são escassos.

A este reality show falta aquilo que Antonio Candido veio em sua literatura a chamar de consciência catastrófica do subdesenvolvimento, entendido também como consciência de classe. Os realizadores se mostram completamente alienados, negam a própria cultura e se permitem receberem o intruso dentro de si mesmos. Exaltar a camada mais rica é o mesmo que aplaudir a desigualdade social, concordar com a pobreza e a concentração de terras em poucas mãos existente ali. 

Este México loiro, magro e vestido com roupas caras não passa de uma ilusão. Talvez esta venha a ser a pior produção Netflix com a qual eu já tive contato e uma conotação negativa, a partir desta veiculação,  se assimila a empresa. O programa é covarde e e sua circulação, um desserviço a realidade social.

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