Escrito, produzido e dirigido por Samuel Galli, Mal Nosso é um filme diferente, provocativo, surpreendente e, em muitos momentos, chocante. Seus prêmios e o grande prestígio internacional não são à toa, pois ele é sim merecedor disso tudo. O longa conta a história de de Arthur, um médium que, após o aviso de seu mentor espiritual, se vê obrigado a tomar medidas drásticas para proteger sua filha de uma entidade demoníaca. Ele, então, contrata um serial-killer da deep web para fazer o serviço.

Mal Nosso já nos mostra a que veio nos minutos iniciais: com uma trilha sonora assustadora, ele cria toda uma atmosfera de tensão e suspense. O longa conta com uma narrativa não-linear e um tanto cadenciada do meio para o final. Mesmo com essa cadência (necessária para se compreender toda a trama e os seus detalhes), o filme não se torna cansativo e consegue prender o espectador. A direção é boa e consegue conduzir bem os atores em cena. A trama é bem desenvolvida, do início ao fim, e envolvente. Possui dois atos que parecem dois filmes de terror completamente diferentes, mas que você vai perceber que se encaixam perfeitamente e que um depende do outro. O primeiro ato se encaixa no terror psicológico, slasher; o segundo, no terror sobrenatural.

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A fotografia é um dos pontos fortes da obra, apesar de apresentar um problema, logo no início, quando a câmera nitidamente balança, o que me incomodou um pouco. O enquadramento é muito bom e consegue, em diversos momentos, captar as expressões mais sutis dos atores. Isso acontece, por exemplo, na cena em que o personagem principal mexe no notebook: vemos apenas metade do seu rosto, o que nos permite perceber todas as suas expressões e entender o que ele está sentindo. As cores e a iluminação ajudam bastante na atmosfera de terror, como na cena em que Arthur e o assassino se encontram: há uma luz vermelha bem forte, com iluminação um pouco baixa, o que fortalece o clima de suspense.

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As atuações são boas, em sua maioria, com destaque positivo para Ademir Esteves (Arthur) e Fernando Cardoso (Arthur jovem): ambos estão muito bem, conseguem transmitir com competência e veracidade os sentinentos e as nuances do personagem. Percebemos claramente o quão atormentado e infeliz Arthur é. Esteves está ainda melhor: a sua voz cadenciada e baixa mostra a personalidade calma do personagem, e suas expressões são de uma sutileza e veracidade impressionantes. O destaque negativo vai para Charles (Ricardo Casella): é a única atuação nada convincente do longa. Suas expressões quase não mudam, independente da situação.

Mal Nosso é um bom filme de terror, muito melhor do que várias produções estrangeiras. A trilha sonora se encaixa perfeitamente com as cenas e proporciona uma atmosfera de suspense e horror bem realista e, muitas vezes, de tirar o fôlego. Possui cenas que chocam, que você pode até acertar o que vai acontecer, mas a execução te surpreende. Há, pelo menos, duas referências a outros filmes de terror: A Hora do Pesadelo e O Exorcista (esta cena feita de uma forma bem mais visceral e chocante). Mal Nosso é uma obra como poucas, não é algo de outro mundo, tampouco brilhante, mas é muito diferenciada e possui elementos e detalhes que a engrandecem demais. Não é um terror fácil de assistir, é incômodo, brutal, impactante, corajoso, ousado, provocante, imprevisível e assustador.

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Mas ele vai além de simplesmente querer chocar e assustar: possui algumas metáforas bem interessantes e nos faz lançar a seguinte pergunta: qual é a nossa missão nesta vida? Como diz o próprio Samuel Galli: “Acho que no fundo o filme é sobre a descoberta de o porque estamos aqui e as consequências dessa descoberta”. O longa chama a atenção para um fato: devemos valorizar o terror brasileiro, para que mais produções como essa possam existir e ser reconhecidas. Mal Nosso é uma belíssima surpresa e merece ser valorizado e lembrado por muitos anos.

 

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