Nós últimos anos, o cinema de terror tem sido bombardeado por filmes clichês e apelativos e remakes desnecessários. Poucos são os filmes que se destacam e entregam algo diferente: Hereditário, Corra, A Bruxa e Nós são alguns desses exemplos, que fogem do tradicional e comercial. Midsommar – O Mal Não Espera a Noite não decepciona e também se encaixa nesse grupo: é um terror como poucos, que não assusta, mas impressiona, choca, incomoda demais.

No longa, acompanhamos a história e os dramas internos de Dani (Florence Pugh), uma garota que está passando pelo momento mais difícil de sua vida. O relacionamento de anos com seu namorado, Christian (Jack Reynor), está enfrentando uma forte crise e parece não haver solução. Para piorar, ela perde seus parentes mais próximos em um terrível incidente. Terrível mesmo. Buscando um meio de tentar conforta-la, Christian a chama para ir com ele e os amigos para a Suécia, a convite de Pelle, para conhecer a comunidade aonde este cresceu. Ao chegarem, encontram paisagens belíssimas, pessoas extremamente simpáticas e, aparentemente, pacíficas e muito tranquilas (até demais). Quando se deparam com uma cultura completamente diferente da sua, é normal haver um choque, mas, assim que coisas muito estranhas começam a acontecer, eles percebem que, talvez, não devessem estar lá.

 

Assim como em Hereditário, o diretor e roteirista Ari Aster constrói o terror aos poucos, de forma sutil, nos detalhes. É preciso ter paciência para saber acompanhar o longa, sua narrativa envolvente e a forma delicada e quase genial como o diretor consegue aliar a história e os elementos de terror aos dramas internos dos personagens. A narrativa é simples, mas muito bem elaborada. Ele não entrega tudo “explicadinho” ao público, os detalhes são muito importantes para entender o que acontece, mas não é daquelas obras que deixam várias coisas subentendidas. Se prestar atenção, é possível entender tranquilamente. Tem uma narrativa até de mais fácil compreensão do Hereditário, seu primeiro longa.

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Tudo, absolutamente tudo, em Midsommar, colabora para construir uma atmosfera de terror muito bem feita: a trilha sonora, os efeitos de câmera, a fotografia, a narrativa. O diretor cria um ambiente que sufoca, incomoda, choca, perturba, aflige. O melhor é que Ari Aster não precisa da noite, do escuro para conseguir atormentar. Durante o dia, com uma fotografia extremamente clara, ele consegue aterrorizar muito mais do que diversos filmes que apelam para a escuridão para tentar fazer terror. Se a fotografia fosse escura, não causaria o mesmo impacto. Ele usa a claridade ao seu favor de forma brilhante. Assim, conseguimos ver todos os detalhes da obra, o diretor realmente não esconde as coisas, ele mostra absolutamente tudo. E isso é o que mais choca.

A fotografia do filme é simplesmente perfeita, de uma beleza estonteante. As paisagens bonitas, as flores, aliadas à luz do sol e aos figurinos brancos dos habitantes locais, passam uma sensação de tranquilidade, paz, até mesmo de felicidade. Por isso, quando a obra toma outro rumo, quando os hóspedes e o público descobrem o que realmente está acontecendo, impressiona demais, porque, por mais que seja um filme de terror e que se sabe que algo ruim vai acontecer, não dá para imaginar que vai ser daquela forma, naquela proporção. Esse contraste entre o belo e o brutal é uma das coisas que mais choca e perturba. Ari Aster parece brincar com o público, porque não esconde muito a narrativa, é possível perceber quando algo vai acontecer, ele praticamente deixa isso claro, e parece mesmo proposital. Ele não quer impressionar pela surpresa, mas pela intensidade. Há cenas que de tão bizarras e extremamente estranhas, tendem a ser cômicas e levar ao riso e aos deboches. E, provavelmente, é essa a intenção do diretor: mostrar algo tão estranho e fora do convencional, que causa riso, mas também repulsa.

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As atuações estão ótimas: Mark (Will Poulter), como alívio cômico, consegue atuar de forma convincente, faz o público rir de maneira espontânea, natural. Os habitantes do vilarejo estão muito bem, ajudam demais no ambiente de terror crescente. Quase me faltam palavras para descrever a atuação de Dani (Florence Pugh): de longe, é o melhor trabalho de todos. Ali dá para ver uma construção de personagem, percebe-se o quanto ela estudou, se preparou e se dedicou ao máximo para o papel. Está simplesmente espetacular. A atriz consegue levar o público junto com ela, é possível sentir todos os seus dramas, todo o seu sofrimento. O espectador sofre junto com ela. As duas cenas mais incômodas e chocantes no filme, na minha opinião, não contêm gore, nem sangue, e são exatamente com Florence. Sua atuação é profunda e natural demais.

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Uma das coisas que mais impressiona em Midsommar é isso: o longa não precisa de elementos convencionais do terror para perturbar e incomodar. Há cenas com um peso psicológico tão grande, que podem atormentar muito mais do que uma simples cena cheia de violência e sangue. Ari Aster consegue nos envolver na atmosfera de horror, enquanto também mergulhamos nos dramas de seus personagens, tudo ao mesmo tempo. O sofrimento da protagonista é misturado ao horror vivido por eles naquela comunidade, e essa mistura deixa o longa ainda mais incômodo e angustiante. É uma obra belíssima, com uma fotografia encantadora, nem parece realmente um filme de terror, mas te surpreende. É visceral, chocante, violento, aflitivo e perturbador.

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