A trama de Prometheus (Ridley Scott, 2012) envolve os tripulantes da nave de exploração homônima em sua jornada para encontrar os Engenheiros – supostos criadores da raça humana – em um planeta há anos-luz de distância da Terra. O que estes cientistas e pesquisadores encontram pode ser uma ameaça não apenas para eles, mas para a toda a humanidade. Como um dos slogans do filme menciona, “a busca por nossa criação poderia levar ao nosso fim”. O título do longa-metragem remete ao mito do titã Prometeu, que subiu aos céus para roubar o fogo divino e dá-lo à humanidade e recebeu uma punição eterna: ficar preso em uma montanha e ter parte de seu corpo devorado por uma águia. A nave Prometheus foi ao espaço tentando encontrar respostas sobre a criação da humanidade e obter algo não destinado a seu conhecimento, porém a maioria de seus tripulantes foram punidos por terem desafiado seus criadores.

Em suas duas horas de duração, Prometheus consegue manter seu ritmo agonizante e o espectador curioso sobre o que este planeta recém-descoberto pode esconder. Os planos gerais iniciais retratando paisagens inóspitas (filmados na Islândia) começam a construir o tom da fotografia e, consequentemente, do longa-metragem: soturno e misterioso. O contraste com o ambiente restrito da nave espacial – cheia de equipamentos tecnológicos com luzes amareladas e azuis – não exclui o sentimento de perigo e claustrofobia do filme. Os efeitos especiais (premiados com o Oscar) também garantem verossimilhança e são a base para um filme de ficção-científica deste porte. A música “Life”, parte da trilha sonora original de Marc Streitenfeld, é tocada algumas vezes ao longo do filme: durante os planos aéreos iniciais; na chegada da nave ao planeta desconhecido e quando David descobre a espaçonave alienígena, explorando seu interior.

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Uma das melhores cenas acontece quando a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) realiza um aborto numa máquina cirúrgica altamente tecnológica para retirar a criatura que se desenvolveu em seu corpo devido à relação sexual que teve com seu parceiro Charlie (Logan Marshall-Green), infectado pelo androide David (Michael Fassbender) através da matéria orgânica presente no tubo misterioso. Mesmo sendo um robô, David parece ter desenvolvido curiosidade e até certa malícia ao derramar uma gota do estranho líquido alienígena na bebida de Charlie. “Grandes acontecimentos possuem pequenos inícios”, diz ele.

Alguns diálogos e cenas poderiam ser facilmente descartados, a citar quando o geólogo Fifield (Sean Harris) e o biólogo Millburn (Rafe Spall) decidem voltar à nave Prometheus durante a expedição mas acabam se perdendo dentro da montanha. Personagens que provavelmente foram idealizados visando um alívio cômico para o filme, causam nada mais do que vergonha alheia e aborrecimento quando aparecem em tela. Ao se defrontar com uma criatura alienígena semelhante a um réptil, Millburn finge afaga-la e “brinca” com ela, reforçando o estereótipo muitas vezes desnecessário do personagem “bobo e brincalhão que morre primeiro” dos filmes de terror/horror, mesmo que Prometheus não se encaixe exatamente em nenhum desses dois gêneros.

Outro ponto fraco envolve a noção dos tripulantes sobre o que irão fazer há anos-luz de distância da Terra: apenas quando acordam do sono criogênico e já no espaço é que a tripulação fica sabendo sobre sua missão. Aparentemente eles foram mal informados – Fifield posteriormente fala “Eu sou um geólogo. Vim para estudar rochas” – ou o roteiro possui essa falha não verossímil. Acredito mais na segunda opção. Noomi Rapace e Michael Fassbender garantem as mais interessantes interpretações do longa-metragem: o aumento da angústia de Elizabeth devido às suas tristes descobertas contrasta com a expressão continuamente serena de David, absorto e maravilhado com os acontecimentos que presencia. A austeridade e frieza da personagem Meredith Vickers (Charlize Theron), responsável pela expedição e filha do multibilionário Peter Weyland (Guy Pearce, exageradamente maquiado) também é relevante e confronta os outros tripulantes.

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Dos relacionamentos estabelecidos entre os personagens, o mais interessante é aquele desenvolvido entre Meredith Vickers e David. Tendo sido criado por Peter Weyland, David ignora Vickers assim como seu criador despreza a própria filha: isso é evidente quando o androide interrompe a transmissão da câmera em seu capacete ao descobrir algo impressionante dentro da espaçonave alienígena enquanto Vickers assiste, por exemplo. Em outra cena, após conversar com Weyland a sós, David é literalmente jogado contra a parede por Meredith, curiosa acerca do assunto tratado entre os dois. “Eu não acho que ele iria querer que eu te dissesse”, comenta David.

A crença de Elizabeth na expedição, além de se basear em achados arqueológicos que sugerem vida extraterrestre, tem fundamento religioso. A cientista não sabe realmente se vai encontrar algo em LV-223, mas a fé parece ser seu maior guia. “É no que escolhi acreditar”, diz ela. A questão existencial também atinge David, uma criação perfeita, mas desprovida de alma. O androide não entende porque Elizabeth decide continuar a procurar respostas para uma das questões mais básicas da humanidade (de onde viemos?). “Talvez porque eu seja humana, e você não”, responde. A curiosidade de David parece intrínseca ao desejo de uma explicação existencialista de sua criação e a procura por sua alma.

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Prometheus é um filme regular, com uma construção clássica linear e de fácil entendimento, porém com algumas cenas desprezíveis e justificações rasas. A obra funciona individualmente, mas sua ligação com a franquia Alien garante descobertas interessantes, as principais delas sendo a nave alienígena que alça voo ao final da projeção e também o último plano do longa-metragem, retratando o nascimento do Alien, criatura que aterroriza Sigourney Weaver por quatro filmes seguidos na saga original. Portanto, o longa-metragem se coloca em vários lugares: faz parte do universo da franquia Alien, aborda temas existencialistas e funciona como uma ótima ficção-científica com elementos do horror.

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