24 de dezembro. Véspera de Natal. Hollywood, Califórnia. Sin-Dee (Kiki Kitana Rodriguez), recém-liberada da prisão, descobre que seu namorado Chester (James Ransone) estava a traindo enquanto esteve presa. Sabendo do adultério através da amiga Alexandra (Mya Taylor) em uma das mesas do Dunkin’ Donuts, Sin-Dee cruza uma Los Angeles alaranjadaem busca da garota que se aproveitou de Chester. O filme também segue a rotina do taxista armênio Razmik (Karren Karagulian), que divide a vida entre seu emprego, a esposa e filha e as ocasionais relações sexuais com prostitutas. Ao saber sobre o retorno de Sin-Dee, Razmik decide reencontrá-la: “Looks like someone has a crush”, diz Alexandra em determinado momento, abordando sutilmente o relacionamento entre os dois.

O enredo clássico e desenvolvido em aproximadamente 90 minutos poderia ser esquecível não fosse a maneira como as histórias individuais confluem no clímax final em um ritmo dinâmico e até desesperador. Enquanto Sin-Dee faz sua busca pelas ruas, Alexandra divulga para suas amigas o show que irá realizar à noite e Razmik enfrenta a rotina comum dos passageiros em seu veículo. Escurece: Sin-Dee finalmente encontra Dinah (Mickey O’ Hagan), a “amante” de Chester, que na verdade é também uma prostituta e o tem como cafetão. Alexandra espera ansiosa pelos convidados no bar aonde vai cantar e Razmik janta com sua esposa, filha e sogra.

Sin-Dee leva Dinah pelos cabelos através da cidade e acaba se lembrando do show de Alexandra: as duas entram em um ônibus e chegam a tempo, inclusive para ajudar Alexandra a se preparar. Após a apresentação, o trio volta para o Dunkin’ Donuts e encontram Chester. A confusão começa até que Razmik – que havia saído em meio ao jantar natalino para ir ao show de Alexandra e acabou descobrindo que ela e Sin-Dee estavam no Dunkin’ Donuts – chega ao local.

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Enquanto isso, a desconfiada sogra de Razmik chama um táxi e pede ao motorista que encontre seu genro. Pertencendo à mesma rede de taxistas, o motorista encontra o colega e leva a sogra até ele. Ela entra no estabelecimento e a confusão aumenta ainda mais. Em casa, a filha percebe sua ausência, liga para a mãe e descobre aonde ela e o marido estão, partindo para o local. Assim, todos os personagens e seus conflitos são convergidos na pequena loja de rosquinhas. Após a discussão, o roteiro surpreende o espectador com um amargo plot twist. A relação entre as protagonistas é abalada e as duas se afastam, porém um pequeno incidente as reúne na sequência final. Não cabe a mim revelar spoilers, apenas incitar o leitor a assistir ao filme.

O grande mérito de “Tangerine” é seu roteiro simples, consistente e bem desenvolvido. Mais do que apenas isso, as falas engraçadas e determinação dos personagens (principalmente das protagonistas) tornam a experiência fílmica extremamente divertida. Aliada a uma montagem ágil e uma trilha sonora em sua maioria instrumental com batidas fortes e dançantes, “Tangerine” é entretenimento puro. Mas não apenas isso.

A escolha de duas transexuais como protagonistas coloca o filme numa importante discussão sobre representatividade no cinema, sendo este o primeiro longa-metragem que assisti retratando mulheres transexuais. Em uma entrevista recente, a atriz Mya Taylor falou sobre a dificuldade de ser transexual nos Estados Unidos e como os diversos empregos para os quais se candidatou não deram certo. “Tangerine” surgiu então como oportunidade e visibilidade não apenas para ela, mas para a comunidade trans e sua representação no audiovisual.

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As escolhas fotográficas da obra – filmada num iPhone adaptado com aplicativos e lentes especiais – mostra sua relevância técnica. Para os iniciantes (ou não) na área do audiovisual, a utilização de poucos aparatos fotográficos (que geralmente têm um preço elevado) que resulta num produto relevante é um de seus principais objetivos.  O tamanho reduzido do equipamento permitiu dinâmicos movimentos de câmera que garantem fluidez e uma reiteração (a partir da cinematografia) dos sentimentos das personagens: Sin-Dee, por exemplo, é filmada em travellings com steadicam enquanto anda furiosa pelas ruas. Razmik, na maioria das vezes, aparece em lugares fechados sob uma câmera fixa, seja seu táxi, casa ou durante o já citado clímax final.

O retrato de uma realidade conturbada não exclui os momentos humanos da narrativa: mesmo após arrastá-la pelos cabelos e ter procurado o dia todo pela amante de Chester, Sin-Dee ajuda Dinah a se maquiar enquanto estão no camarim do estabelecimento aonde Alexandra irá se apresentar. Ao emprestar sua peruca à Sin-Dee nos minutos finais do longa, Alexandra se redime do erro que cometeu num aparente gesto simples, mas muito relevante naquele universo difícil e após a “jornada das heroínas” retratada no filme.

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A predominância do laranja-tangerina do qual deriva o nome do longa-metragem garante vigor ao universo fílmico. “O mundo diegético é tão colorido e as mulheres nele também”, disse o diretor em uma entrevista ao website norte-americano The Wrap em 2015. Entretanto, Sean Baker admira que várias interpretações surgiram na tentativa de explicar o título e que está tranquilo com um nome que incite diversas leituras. Nesse quesito, as tonalidades alaranjadas dos planos acabam sendo apenas um recurso visual que não dialoga expressivamente com o enredo. Em determinada cena, Alexandra entrega um acessório para Razmik pendurar em seu táxi com formato de tangerina: uma atitude que reflete sutilmente o título. Sean Baker traz uma discussão importante na entrevista já citada sobre a necessidade dos cineastas em encontrar um nome incrível para suas obras, quando muitas vezes um nome sugestivo e/ou simples pode funcionar e fazer muito pelo filme.

A homossexualidade das protagonistas volta à questão da representatividade: tão incrível quanto experimentar um mundo novo através do cinema é ver-se representado nesse mundo, saber que seus questionamentos e vivências estão sendo mostrados e levados a sério.

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