O premiado diretor uruguaio Álvaro Brechner, responsável pelos filmes Mau Dia Para Pescar (2009) e Mr. Kaplan (2014), em uma co-produção Uruguai-Argentina, traz às telas de cinema a história de três prisioneiros uruguaios feitos de reféns pelo governo durante a ditadura militar do país. São eles: Mauricio Rosencof (Chino Darín), Eleuterio Fernández Huidobro (Alfonso Tort) e o ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica (Antonio de la Torre).

Logo nos primeiros minutos já é possível perceber que o longa não é uma obra fácil de se digerir. A violência já é apresentada aos espectadores na primeira cena, alinhada à um movimento de câmera rotativo que cria uma sensação nauseante ao representar o sequestro dos prisioneiros pelos militares. A partir daí inicia-se uma contagem de dias que parece nunca ter fim, os dias que os três personagens ficariam presos, e é deste número que se origina o nome do filme.

A maior parte dos 123 minutos do longa é silenciosa, afinal, cada um dos reféns se encontra em uma cela separada e em condições desumanas, sem contato algum com o mundo externo. Nem mesmo os guardas podem se comunicar com eles, já que são tidos como “indivíduos muito perigosos com alta capacidade de persuasão”. Este silêncio brutal é explorado de maneira brilhante, ressaltando-se a textura dos sons, os ecos, ruídos e outros detalhes particulares de cada uma das “prisões” (entre aspas por se parecerem mais com calabouços do que com presídios) por que passaram.

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A fotografia é igualmente brutal, representando cada personagem à sua maneira. Os planos próximos e detalhe denunciam as condições sub-humanas às quais os prisioneiros foram submetidos. Somos transportados para as celas juntos a cada um compartilhando do sofrimento dos personagens, mas também de suas histórias e humanidade. Os pequenos lapsos de esperança, como o meio que Fernández e Rosencof encontram para se comunicar, são representados de maneira belíssima e trazem uma carga emocional fortíssima. A solidão de Mujica é ressaltada através dos planos abertos em uma das celas e planos escuros com focos de luz muito pequenos. Seu enlouquecimento é representado através de quadros próximos com baixa profundidade de campo, que alinhados a uma montagem rápida e um trabalho de som primoroso materializa a condição crescente de desamparo e de perda de sanidade.

O roteiro do filme é simples, focando muito mais no tempo de confinamento do que na vida de cada um dos personagens, porém quando o faz, consegue manter a sensação de urgência e, assim, não desvia a atenção do público. Assistir ao filme é uma experiência de sofrimento, mas um sofrimento empático. A construção da narrativa é muito bem feita, a ponto de causar uma espécie de dilatação temporal que torna difícil saber a duração do filme sem conferir.

Uma Noite de Doze anos é, até agora, o melhor filme de 2018, além de ser uma obra essencial para o momento político mundial. Impossível não segurar as lágrimas no minuto final do filme em que o rosto de Pepe Mujica, livre após doze anos, é enquadrado junto à frase: “…e em 2010, José Mujica foi eleito Presidente do Uruguai”. O longa nos faz ter ainda mais apreço pela liberdade e pela democracia, e dá a quem o assiste, três exemplos reais de resistência e luta para se levar para a vida.

 
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