Atenção, esta matéria irá conter spoilers da primeira e da segunda temporada de You (Netflix).

A série You (Netflix), traduzida como Você, chegou à plataforma em setembro de 2018. Com uma proposta diferenciada, trazendo o que parecia à princípio uma história de amor, o show mostrou-se, na verdade, um conto de horror. Seu protagonista, Joe Goldberg, envolve o espectador em sua narrativa enquanto faz de tudo para estar junto de seu interesse amoroso, inclusive, cometer diversos crimes.

Como a história segue pelo ponto de vista do personagem de Penn Badgley, tudo o que vemos é a sua versão dos acontecimentos. A forma como Joe observa os fatos é a forma como entendemos eles. E isso tudo é muito perigoso. Inclusive, houve várias discussões à respeito da série. Isso porque muitas pessoas romantizaram os crimes e a conduta obsessiva de Goldberg. A questão é que a forma como foi produzido o show dá sim margem para tal interpretação.

You (Netflix) pode ser associada à Lolita de Nabokov

Assim como é possível observar na obra de Vladimir Nabokov, Lolita, protagonistas manipulam narrativas. Na obra, Humbert Humbert, um homem de meia idade, abusa de uma jovem de 12 anos. Tanto o livro, quanto o filme, foram romantizados e mal interpretados. Alguns trataram da história como um romance, outros acreditam que Dolores quem seduziu o homem e se tratava de uma relação totalmente consensual.

Humbert era um pedófilo. Um homem que via em uma criança um objeto de desejo sexual e afeição romântica. No momento em que o protagonista vê sua Lolita como uma adulta, no fim da obra, todo o seu encanto some. Então, toda aquela versão de Dolores que era mostrada ao longo da obra não passa do ponto de vista doentio de Humbert.

Em You (Netflix), temos a história pelo ponto de vista do apaixonado Joe. Ele vê seus alvos com afeição e como um prêmio. Mas toda a realidade é manipulada e controlada por ele para que nada atrapalhe suas investidas. Toda essa desconstrução do encantamento inicial pode ser observado ao fim de cada temporada.

Um exemplo é quando Joe chega ao fim da segunda temporada e fica horrorizado em descobrir que Love (Victoria Pedretti) realizou com ele os mesmos crimes que ele mesmo cometeu contra ela e contra Beck (Elizabeth Lail). E não foi só Goldberg, o público como um todo ficou surpreso. Porém, a mesma fala para ele que a verdadeira forma dela sempre esteve ali, ele que enxergou apenas o que queria.

O perigo do envolvimento não crítico do público

Toda a surpresa do público, que foi a mesma de Joe, foi por conta da manipulação que o mesmo fez com relação à toda a história. E o perigo por traz dessa narração idealizada é exatamente esse. Vários outros protagonistas que sofrem de patologias parecidas são apresentados ao público desta mesma forma e a falta de análise faz com que o espectador se envolva com o roteiro ao ponto de achar que condutas parecidas com aquelas são normais.

A banalização ou a interpretação incorreta dos fatos apresentados pela obra geram um espectador suscetível a ver tais condutas de forma naturalizada em sua própria convivência. Então, o perigo é gerarmos um público que, ao invés de sentir repulsa, irá abraçar ações obsessivas como a de Joe.

E você, o que acha que protagonistas como Joe podem fazer com o público? Conta para a gente aí nos comentários! Vamos conversar.


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